População armada, banalização da morte, violência de gênero, justiça seletiva, xenofobia, racismo. O cenário apresentado em Tempos de violência – brutalidade, contravenção, estupro e suicídio no interior paulista do início do século XX, quinto livro do historiador Edson Fernandes, muito diz sobre a conjuntura atual do país, embora o autor tenha mergulhado nas duas primeiras décadas do século XX. Sua pesquisa tem como base inquéritos policiais da Comarca de Bauru e envolve fatos ocorridos entre 1903 e 1924, numa vasta área conhecida como centro-oeste paulista.

Tempos de violência expõe o que a História tradicional costuma varrer para baixo do tapete, o lado obscuro de uma sociedade que, em meio à urbanização acelerada (e desordenada), celebrava as conquistas da modernidade – a chegada do trem, o telefone, a luz elétrica.

Também chama a atenção o número de pessoas que atentavam contra a própria vida e o grande número de crimes contra a mulher, que na maioria das vezes eram soterrados por atenuantes para os criminosos, homens de bem.

Assim, este livro permite traçarmos inúmeras conexões entre a realidade pretérita da cidade, de um século atrás, e o momento em que vivemos, assolado pelo aumento exponencial do número de armas em circulação, pelo escancaramento dos preconceitos e pela naturalização da barbárie.

 

HISTÓRIA

 

Leia um trecho de Tempos de violência

 

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A violência de ontem e hoje

O livro é dividido em três temas – violência cotidiana (que envolve contravenções, homicídios e violência de forma geral), violência contra a mulher (destacando casos envolvendo violência de gênero e estupros, incluindo de menores) e violência contra a própria vida (com relatos de suicídio). “Estamos falando de uma região em pleno crescimento, com a chegada de três importantes linhas férreas, Noroeste, Paulista e Sorocabana, e, com elas, a vinda de milhares de trabalhadores de várias partes do Brasil e de outros países”, conta o autor. Segundo ele, a partir daí pequenos vilarejos ganharam ares de importante cidade e, com o progresso, vieram muitos problemas sociais. A forte presença de armas nas mãos da população tornava tudo ainda mais trágico. 

 

A violência e as leis

Tempos de violência conta com texto de apresentação da advogada e mestre em Direito Constitucional Marcia Negrisoli, que, em 2019, tornou-se a primeira mulher eleita presidente da OAB – Seccional Bauru, entidade criada em 1932. Ela destaca a relação entre o Direito e a violência que toma conta do país, em especial no que diz respeito à mulher, e faz um retrospecto dos avanços da Lei Maria da Penha (Lei no. 11.340, sancionada em 2006) e Lei do Feminicídio (Lei no. 13.104, de 2015, que traz um novo paradigma legal, na medida que cria penas para esse tipo de crime). “O fato é que a violência é tão enraizada em nossa sociedade que muitos homens parecem não ter medo de tais punições, o que se agrava diante da dificuldade da mulher em denunciar, sendo que muitas vezes é desacreditada. Ou seja, a lei é importante, mas a mudança da cultura machista vai além da legislação”, salienta a advogada.  

O livro é fruto de uma vasta pesquisa em inquéritos, processos criminais e páginas policiais. Foram consultadas centenas de documentos que estavam sob a guarda do Núcleo de Pesquisa e História da Universidade do Sagrado Coração “Gabriel Ruiz Pelegrina” – NUPHIS-USC (hoje Unisagrado, localizada em Bauru). Tempos de violência traz cerca de 90 histórias que envolvem figuras históricas (como Rodrigo Romeiro, primeiro juiz da Comarca de Bauru, e o advogado Eduardo Vergueiro de Lorena, que se tornaram nomes de ruas) e pessoas comuns, de diversas profissões e origens. 

O texto mistura a narrativa atual do autor a trechos dos relatos originais, reproduzidos exatamente do modo como foram anotados pelos escrivães ou publicados em jornais da época, mantendo inclusive a escrita usual do início do século XX e evidenciando a língua e suas expressões como uma marca indelével de cada época.

TEMPOS DE VIOLÊNCIA Edson Fernandes

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  • Edson Fernandes é doutor em História e, nos últimos anos, tem desenvolvido pesquisas relacionadas à ocupação e povoamento da região centro-oeste do Estado (antiga Província) de São Paulo, incluindo os conflitos com a população indígena que habitava o território e a criação de vilas e povoados entre o final do século XIX e o início do século XX. Além de artigos em revistas especializadas, é autor de Lençóis Paulista conta sua história (coautoria com Cristiano Guirado, 2008), Uma vila no sertão: Lençóes, século XIX (2011), Histórias incomuns (2014) e Fronteira infinita: índios, bugreiros, escravos e pioneiros na Bahurú do século XIX (coautoria com Luís Paulo Domingues, 2018).


  • 176 páginas

    1a Edição

    Editora Mireveja

    ISBN: 978-65-86638-03-5

    Capa e projeto gráfico: Alexandre Pottes Macedo